Artigo: Exterminando o Preconceito

Jornal A Tribuna - Domingo, 01 de julho de 2012 - A6

Roupas apropriadas para gordinhas, sem esconder o corpo: é um avanço numa sociedade que cultua a magreza. Mas falta muito. 

RONALDO ABREU VAIO
DA REDAÇÃO
A aura do preconceito pode ainda estar firme e forte, masuma rápida consulta na internetatesta: seja na moda ou no estilo de vida, as pessoas um pouco acima do peso, bem como os assumidamente gordinhos, vêm ganhando cada vez mais espaço.
Uma pesquisa no Google com a palavra gordinhas resulta em mais de 3 milhões de entradas – a imensa maioria, positiva. O destaque, aqui, são os blogs, com nomes para autoestima nenhuma
botar defeito: Gordinhas Maravilhosas, Gordinhas Lindas, Poderosas Gordinhas. Quando se buscam confecções para gordinhas, surgem quase 800 mil entradas. Surpresa é encontrar uma revista virtual de comportamento especialmente para esse público: a CriaturaGG, já com respeitáveis 12 anos de existência. Além, é claro, das milhares de lojas, virtuais ou não, das marcasedas confecções especializadas.
A Vickttoria é uma delas. Há 15 anos no mercado, tem uma loja física em Brasília e está abrindo outra no Shopping Ibirapuera, em São Paulo. “Quando começamos, havia poucas empresas, a maioria para atender senhoras acima do peso”, conta Patrícia Camargo, designer da Vickttoria.
Hoje, segundo ela, o público plus size (tamanho grande) rejuvenesceu e está mais exigente em relação à moda.
Os tempos das roupas largas para esconder o tamanho do corpo ficaram para trás. Em suma, o que é bom para as magrinhas pode igualmente ser bom às gordinhas, desde que adaptado.
“O preconceito ainda existe. Mas a gordinha está mais segura do corpo que tem, independentemente do que os outros pensam. Ela quer se vestir bem”. Os manequins da Vickttoria
começam no número 46 e vão subindo até o 56. Quase um contrassenso para a miúda Patrícia, em seu modesto manequim 36. “Sou pequena mesmo (risos). Mas, hoje, já não sei fazer roupa para magras”.
PADRÕES INFLEXÍVEIS
Há oito anos, o dia a dia da psicanalista Joana Vilhena Novaes é lidar com o lado obscuro da beleza  ou da suposta falta dela. Como coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro e da Divisão de Psicologia da Obesidade Mórbida da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), é taxativa: o preconceito domina as relações entre gordos e magros no Brasil. “Ainda não acho que haja uma aceitação no imaginário. Criou-se um mercado pois a sociedade de consumo tenta se aproveitar de tudo e isso até pode ajudar numa mudança, mas leva tempo. O preconceito nos mercados do amor e do trabalho ainda é a tônica”, avalia.
O culto ao corpo, extremo no País segundo Joana, transforma- o em uma entidade moral por si mesma, que acaba sendo um cartão de visita do indivíduo nas relações sociais. Tudo dentro de um padrão bem rígido, em que magreza traduz sucesso, beleza e saúde. E o seu oposto, fracasso, feiúra, debilidade.
“Poucas coisas no Brasil têm uma avaliação moral tão rígida (quanto o corpo). Para todo o resto, existe o jeitinho, tem fuga para tudo”.
Em padrões tão inflexíveis, e considerando que o indivíduo em sociedade vive sob o olhar de avaliação do outro, é fácil deduzir: aqueles que não se enquadram sofrem mais – já que com a felicidade pessoal sempre concorre a aprovação coletiva.“Esse corpo vira um calvário. Na arena social, na praia, por exemplo, você tem de estar em dia com esse protocolo. Tornase uma questão de caráter. E para superar isso, é preciso uma dose de autoestima que a maioria das pessoas não tem”, comenta Joana.

CORPO SOCIAL

É difícil precisar de onde vem a associação entre magreza e beleza, gordura e feiúra. Mas sabe-se que nem sempre foi assim. Pelo contrário. Na Renascença, por exemplo, culotes avantajados, cintura roliça e coxas grossas eram não só sinônimo de beleza, como de distinção social, já que as mais cheinhas tinham acesso a uma alimentação farta – coisa rara na época. Ou seja, o corpo da moda era ditado pelas classes mais abastadas. E, para Joana Vilhena Novaes, isso não mudou em 500 anos. “O corpo hoje dito ideal demanda tempo e dinheiro. É o do alimento orgânico, do spa, do personal trainer. Quem é que pode ter acesso a isso tudo?”. 
A pergunta fica no ar, enquanto as vítimas vão caindo. Das adolescentes anoréxicas que ainda assim seacham gordas, à menina de 15 anos, obesa, que chegou aos cuidados de Joana após uma tentativa de suicídio – consequência de ter sido objeto de uma aposta. “O menino disse que foi conversar com ela só para mostrar aos amigos que chegaria na menina mais feia da boate”, relata. E encerra com um exemplo que pode servir como um atestado da pequenez dos preconceitos. “Se há 40 anos eu te dissesse que malho três horas por dia, não como carboidratos, me alimento em horários rígidos, eu seria enquadrada com Transtorno Obsessivo- Compulsivo (TOC). Hoje, não. Hoje é visto como normal. Precisa sempre mais”.

Amor-próprio


A empresária e modeloplus size Maria Cecília Ribeiro Pereira Alves, de 32 anos, ama cada um dos seus 103 quilos – em 1,69 metro de altura. “Nunca tive problema algum. Nunca fiquei sozinha, sempre fui namoradeira. Namorados diziam: ‘Você é um mulherão, em todos os sentidos”. Prova disso é a filha, hoje com um ano. Mas nem sempre foi assim. Na adolescência, já gordinha, foi alvo de brincadeiras sem graça nenhuma e presa de medos corriqueiros a quem tem 13 anos e está acima do peso. “Em correio elegante, de festa junina, recebi bilhete do menino mais bonito – uma brincadeira dos amigos dele”. Também chegou a passar por todos os regimes possíveis e imagináveis, da sopa à sibutramina – mas sempre por causa do que os outros pensavam. “Até que eu disse pra mim mesma: ‘Agora, chega!’. Se alguém não gostar, o problema não é meu”. Hoje, é decidida: por exemplo, se fica encantada por uma roupa que não tem do seu tamanho, tira uma foto, compra o pano e vai direto à costureira. Foge de academia como o diabo da cruz – “nunca gostei” –, mas diz que vai começar na ioga ou no pilates, por causa da dor na coluna. E, assim, Ciça, como é chamada, toca a vida, dividindo-se entre os trabalhos como modelo – já posou para várias coleções de marcas especializadas e, na internet, foi alçada ao sétimo lugar do Miss Brasil Plus Size, ano passado – e na farmácia de manipulação de remédios veterinários da qual é sócia. Ou seja, nada diferente da maioria das pessoas, tenham elas 50, 100 ou mais quilos. “As pessoas tendem a dar valor a futilidades. Não que seja fútil
ter um corpo esbelto. Mas o mais importante é você estar bem”

3 comentários:

  1. nossa, que totalmnte real. sofro ainda muito preconceito por ser acima do peso...
    beijos

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  2. Adorei essa reportagem.Bjs

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  3. Bom post.Muito boa a reportagem.Esse lance de preconceito esta por fora.Tem que acabar.
    bjs

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