#Eueacomida: Me contaram que eu sou gorda...

Não consigo entender a necessidade que as pessoas têm de argumentar ~com justificativas supostamente plausíveis~ sobre hábitos e situações da nossa vida. Não importa onde a gente esteja, sempre vai ter alguém esperando a primeira oportunidade para soltar aquilo que parecia estar entalado na garganta. É sobre isso que nós vamos conversar hoje em mais um episódio da Tag Eu e a comida!



Acontece muito mais do que eu gostaria que acontecesse. Queria poder dizer que raramente as pessoas se incomodam com o meu corpo, que raramente comentam, que raramente se intrometem "querendo cuidar da minha saúde", sim, entre aspas.
Mas não, infelizmente, para a minha falta de saco, é muito frequente. 
Pessoas de todos os tipos se sentem no direito, ou obrigação, de cuidar da minha saúde. Eu me pergunto: Pra que? Pra quem? 
Dia desses vivi a seguinte situação:  
Eu não colocarei nomes para não expor ninguém aqui

Todas as pessoas que convivem comigo sabe que não tenho problema nenhum em conversar sobre obesidade, corpo, padrões de beleza. Sabem, também, que não tenho problema nenhum em falar sobre A MINHA obesidade, O MEU corpo, e os meus questionamentos com relação a padrão de beleza. Isso é muito presente na minha vida, e eu realmente ajo de forma absolutamente natural.

Aconteceu, então, que um amigo estava falando com uma conhecida sobre uma outra pessoa que está numa etapa de tratamento com seu corpo. A pessoa conhecida falava sobre programas, serviços e lugares que seria interessante que essa pessoa buscasse. Entre esses lugares, a pessoa conhecida comentou sobre um programa muito bacana e diferenciado, e eu ~na mais pura inocência~, comentei sorrindo, brincando, com um pouco de ironia:
_Que legal, marca pra mim!

Silêncio absoluto.
Silêncio absoluto.
Silêncio absoluto.
Silêncio absoluto.
Silêncio absoluto.
Silêncio absoluto.
Silêncio absoluto, cara de coragem e constrangimento, inspiração profunda.

Então a pessoa conhecida diz, como se desentalasse uma azeitona da garganta:
_Que bom que você falou nisso. Ai bem, porque eu precisava te falar.

Eu sorri enquanto pensava "Onde eu fui me meter? Lá vem!", e sinalizei com a cabeça para que a conhecida falasse.

_Você já buscou ajuda? 
E emendou com uma sequência de perguntas.
_Você já tentou fazer um regime?
_Você se cuida?
_Pratica exercícios?
_A gente precisa se cuidar, bem, você já tentou alguma coisa?

Continuei sorrindo e respondi:
-Já sim.

Não satisfeita, disparou mais uma sequência de perguntas:
_Quem? Aqui na cidade?
_Onde? 

Continuei sorrindo, pensando na vontade de virar as costas e deixar a conhecida falando sozinha com toda a "preocupação com a MINHA saúde" ~entre aspas, novamente. Mas, por educação e muito respeito à pessoa, respondi as perguntas feitas.
Com um notável inconformismo e com expressão de quem, claramente, acredita que tantos tratamentos não deram certo, dispara, mais uma vez:

_Mas você confia nos profissionais? Você já tentou algum outro?

...

Não vou continuar a história porque por aqui chega de tanta intromissão, e a conversa foi desgastantemente longe. 
Continuei sorrindo todo o tempo enquanto eu pensava em qual momento eu havia dado liberdade para tantas perguntas. 
Também pensei no porquê de tanta preocupação "com a minha saúde".
Também pensei naquele suspiro de alívio quando ela, finalmente, conseguiu me contar que eu estou gorda e "preciso de ajuda". 
Assim como aconteceu com essa conhecida, acontece com dezenas de outras pessoas. Então me permitam explicar uma coisa:
EU SEI QUE EU SOU GORDA. Eu tenho espelhos na minha casa; muitos, aliás. Também sei a numeração das minhas roupas, também sei o tamanho dos meus cintos. EU SEI QUE EU SOU GORDA. 
Não fico constrangida de você perceber que eu sou gorda. 
Não fico constrangida em utilizar a palavra gorda para me referir a mim mesma.
Não fico constrangida quando utilizam a palavra gorda para se referirem a mim. 
Gorda é um adjetivo que caracteriza uma forma física, tanto quanto Magra, alta, baixa, larga, fina... 
Ninguém precisa esperar uma ocasião correta para conversar sobre isso comigo, como se fosse um toque que estivessem me dando. Ninguém precisa me perguntar quais tratamentos eu já fiz e se eu já fiz algum, porque se não sabem disso é porque CERTAMENTE NÃO ME CONHECEM, e SE NÃO ME CONHECEM, isso NÃO INTERESSA!
Ao contrário do que parece, eu não fiquei incomodada com a conversa e o excesso de perguntas. 
O que me incomoda é o incômodo das pessoas velado de cuidado com a saúde. Aliás, alguém me explica porque ainda se incomodam com isso?
Me incomoda o fato de acharem que só é gordo quem quer,
Me incomoda ver que AINDA relacionam obesidade com relaxo, indisciplina.
Me incomoda, também, a necessidade de ter que me explicar por ser gorda, como se eu estivesse constantemente na berlinda.
Me incomoda o fato das pessoas acreditarem que eu TENHO QUE me incomodar com o fato de ser gorda. 
GORDA. GORDA.GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. GORDA. 
Convivam com isso. 
Convivam comigo do jeito que eu sou. 
As pessoas precisam entender que não precisam me achar bonita, não precisam sentir atração por mim. Eu também não acho bonito vários tipos de corpos, e não sinto atração por outros tantos. MAS EU RESPEITO TODOS E NÃO ESPERO QUE ELES MUDEM SÓ PORQUE EU NÃO GOSTO.
A vida funciona assim, eu funciono assim, meu corpo funciona assim. 
Não vou nem entrar no mérito de gordofobia, porque neste caso não me pareceu. A questão aqui é o quanto as pessoas se sentem na liberdade de invadir o nosso espaço e meter o bedelho sem, ao menos, buscar saber quem a gente é, qual a nossa história. Se eu tivesse autoestima baixa, receber um "toque" desses de alguém poderia acabar com a minha semana, e me colocar numa situação mais comprometida ainda comigo mesma.
Por sorte, talvez, aprendi a me amar do jeitinho que eu sou. Se eu incomodo as pessoas que só me vêem vestida da cabeça aos pés, imagina quando me virem de saia curta ou biquíni por aí. 

E pra quem ainda há de perguntar, eu cuido da minha saúde SIM. Sou acompanhada por nutricionista, faço exames periódicos, não sou sedentária.
Mas lembre-se sempre: ISSO NÃO É DA SUA CONTA!

Beijos!

2 comentários:

  1. Passei algo parecido no curso... Foi engraçado qdo ela percebeu q eu não me interessava na conversa dela. Sabe aquela cara "nossa, não QR ajuda!!! E a danada qria q eu a ensinasse a fazer a sobrancelha pq a minha era linda!
    Só rindo! Kkkkkkkkk!!!!
    Bjoks!

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    1. Ahhhh me poupe né?! rsrs
      Ninguém merece isso!
      PElo menos eu levo no bom humor hahaha

      beijos, linda

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