#EUEACOMIDA: Eu troquei minha vida por 20kg a menos...

Olá lindezas, tudo bem com vocês? Eu estou ótima e preparada para dividir com vocês mais um pouquinho da minha história. A maneira como a gente se constrói é determinante na forma como a gente se compreende. Durante toda a minha vida tive dois lados opostos muito evidentes, e viver com um pé de cada lado, agradando a gregos e troianos, é muito difícil. É sobre isso que vou contar hoje em mais um episódio da TAG Eu e a Comida.


Fui uma criança gorda, já cansei de repetir aqui. Na verdade, hoje sei que só me compreendo dessa forma, que me olho no espelho e só me reconheço assim. Essa sou eu, foi assim que me constituí, que aprendi a viver, que desenvolvi minha autoimagem, minha autoestima, meu auto conceito. Mas, antes de desenvolver tantos "autos" a meu respeito, travei uma batalha contra mim mesma. 
Lembro exatamente do dia que, aos 8 anos de idade, fui à nutricionista pela primeira vez. Minha família estava preocupada e querendo me ajudar. Eles, aliás, sempre se empenharam com tudo o que foi possível para me ajudar a lutar contra a obesidade. Não, não venho de uma família gordofóbica, apesar de já ter escutado MUITAS vezes que eu não teria namorados, que as roupas não ficavam bem em mim, que eu tinha que ficar bonita, essas frases eram usadas, REALMENTE, como uma tentativa de incentivo para mim, que só foram ditas pela falta de conhecimento e a falta de jeito para lidar com a situação. Apesar disso, essas frases raramente vinham dos meus pais.
Sobre aquele primeiro dia da nutricionista, eu não sabia o que aquela pessoa era. Para mim, com 8 anos, era uma espécie de médico que ia me fazer emagrecer. Eu estava constrangida por ser uma CRIANÇA ANORMAL, porque minhas amigas da escola nunca tinham ido em uma nutricionista. 
Me senti ainda mais anormal quando, com só essa idade, subi na balança e descobri que eu pesava 58kg. Uma criança com peso de adulto. 
Peso, em quilos, de adulto. Mas, mais do que isso, o peso da responsabilidade de um adulto. Eu ia ter que viver com regras que iam além da hora de ir para a escola, de fazer tarefa, de tomar banho e de dormir. Minhas regras eram rígidas, severas, restritas, para tratar aquele problema. 
Eu me sentia carregando um peso que eu não estava preparada para suportar. Não o de 58kg, porque esse eu era acostumada, mas o de ser uma criança obesa mórbida. 
Eu me esforçava, me dedicava... fazia o meu impossível para corresponder às expectativas dos meus pais que gastavam tempo e muito dinheiro no meu tratamento. 
O que acontecia era que apesar de me sentir uma criança ANORMAL, eu era, sim, uma criança NORMAL. 
Eu tinha vontade das coisas. No recreio da escola eu queria comer o que todo mundo comia. Juntava as moedas que conseguia ganhar em casa para comprar salgadinho e balas na vendinha da escola. E eu sabia que não devia fazer isso... Eu comia escondida em algum corredor isolado, dentro do banheiro, algum cantinho. Eu tinha plena consciência de que COMER COMO UMA CRIANÇA NORMAL era errado, temia ser julgada, temia a bronca que eu levaria caso meus pais descobrissem que eu comia aquelas coisas escondida na escola. O problema é que o resultado aparece... e em pouco tempo de tratamento nutricional eu já pesava 60kg. Lembro que a nutricionista me repreendia, de forma sutil, mas repreendia. Lembro da preocupação da minha mãe. Lembro mais ainda que eu frustrava todo mundo, que decepcionava meus pais, e eu era dominada por uma sensação de incapacidade que eu, de fato, não estava preparada para lidar. Essa foi a primeira vez que chorei quando subi em uma balança. 
Passei alguns meses nesse tratamento e em uma semana eu emagrecia um pouquinho, na outra engordava, na outra emagrecia, na outra mantinha, na outra engordava... e assim foi até que desistimos. Aquilo realmente não fazia sentido para mim. Eu não sabia que aquilo tinha a ver com a minha saúde, que obesidade infantil é prejudicial para o desenvolvimento da criança, que poderia me causar uma série de problemas futuros. Eu achava que aquilo tudo era só para corrigir um problema que para mim, até então, não era um problema. 
Depois de um tempo tentamos de novo, e eu já pesava 69kg, e se com 8 anos o problema já era grande, aos 10, 12 anos o problema só aumentava. A diferença é que dessa vez eu já tinha consciência de tudo aquilo que eu não tinha aos 8.
A gente marcava consulta e eu lembro da sensação de medo e constrangimento ao subir na balança. 
Eu subia. Eu chorava. Minha mãe me acolhia e me incentivava. Dava resultado por pouco tempo, e nesta fase eu já conseguia controlar o meu impulso de fugir da dieta. A gente trocava de profissional, tentava uma técnica diferente, um método novo. 
Eu continuava subindo na balança e chorando todas as vezes. Chorava de tristeza, de decepção, de frustração, de vergonha. Eu tinha vergonha de ser daquele jeito, vergonha de não ser capaz de mudar. Eu me sentia decepcionando o médico, a nutricionista, meus pais, meus familiares. O sentimento de fracasso é tão grande, que vai desmotivando. Quando eu achava que não tinha como piorar, já com mais idade e mais peso, seguindo a dieta à risca, nem sempre eu tinha sucesso. Não sei se os outros conseguem imaginar o que sente uma adolescente que em uma semana vê a balança de um jeito, e duas semanas depois vê os números subirem. Eu tentava engolir a seco aquela angústia, mas meus olhos enchiam de lágrima. Passou a ser uma tortura viver tudo isso. 
Os quilos que eu emagrecia já não compensavam mais tantas lágrimas de frustração e tanto esforço meu e dos meus pais. Parei por um tempo. 
Quando criei coragem novamente decidi por um outro tratamento inovador, que eu nunca tinha tentado. Tive sucesso. Foram 20kg mandados embora do meu corpo, dois manequins e, o mais importante, foi embora o estigma de INCAPAZ que eu mesma atribuía a mim. Mas, junto com esses 20kg, foi também o meu cabelo que ficou ralo e quebradiço; foi a minha cor, porque eu fiquei pálida, amarela; foi a minha disposição, porque eu vivia fraca, cansada; foi o prazer de ir a festas, porque eu não podia comer nada do que tinha nos aniversários. Eu troquei minha vida por 20kg a menos. Fiquei feliz com isso, mas não tão feliz quanto eu era quando podia VIVER como alguém NORMAL, quando eu ia a festas de aniversário, quando eu podia comer arroz, quando eu podia me reunir com minhas amigas  de sexta a noite, quando eu podia sentar à mesa de domingo com minha família e comer a mesma coisa que eles comiam. 
Tomei, a partir deste momento, uma das decisões mais importantes da minha vida: decidi ser gorda, decidi ser eu. 
Decidi que viveria feliz como sempre fui, antes desse sofrimento de tratamentos infinitos. Decidi que iria à praia como antes, gorda, sem me preocupar se eu faria dieta ou não para estar apta ou não para vestir um biquíni. Decidi que eu iria a uma festa de aniversário na sexta, um churrasco no sábado e ainda comeria lasanha de domingo. Decidi que iria ao cinema e comer um combo de pipoca + refrigerante e sairia de lá feliz.
Hoje eu controlo, sim, o meu peso. Como adequadamente, sempre que possível faço exercícios físicos, bebo muita água e tenho hábitos de vida muito melhores do que muita gente por aí, mas não deixo JAMAIS de viver a minha vida, aproveitar uma viagem, curtir um jantar com o meu namorado, pensando que isso vai alterar os dígitos da minha balança. 
Infelizmente ainda cultivo o mal-estar-pré-balança, mas depois que entendi quem eu sou e, o mais importante, QUE EU SOU ASSIM, nunca mais chorei ao me pesar. 

E você, qual a sua história? Me conte nos comentários!
Um beijo e até o próximo post!


Episódios anteriores da #eueacomida:

2 comentários:

  1. Eu adoro essa Tag! Me identifico muito com o que você posta sobre sua relação com a comida. Depois de fazer a cirurgia bariátrica, estou escrevendo uma nova história com a comida e com a forma como eu lido com ela. Mas em relação aos regimes de quando era adolescente, já tive até pancreatite por causa disso, ou seja, por pouco não morri. Vou te falar que a terapia tem ajudado bastante a reescrever essa história! Beijos!!

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    1. Re, eu nao sabia da bariatrica e do seu novo blog.
      Ja estou acompanhando e amando sua historia nova!

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